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3a edi��o,
revista e aumentada.

 

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Ap�ndice I.
As esquerdas e o crime organizado

 

Comando Vermelho. A Hist�ria Secreta do Crime Organizado, de Carlos Amorim, � um trabalho de valor excepcional, cuja leitura se recomenda a todos os brasileiros que se preocupem com o futuro deste pa�s. Futuro do qual se pode ter um vislumbre pelas palavras de William Lima da Silva, o "Professor", fundador e guru do Comando Vermelho, citadas � p. 255:

"Conseguimos aquilo que a guerrilha n�o conseguiu: o apoio da popula��o carente. Vou aos morros e vejo crian�as com disposi��o, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas ser�o tr�s milh�es de adolescentes, que matar�o voc�s [ a pol�cia ] nas esquinas. J� pensou o que ser�o tr�s milh�es de adolescentes e dez milh�es de desempregados em armas?"

A quem entenda isso como mera express�o de um del�rio megal�mano, o livro de Carlos Amorim mostra que a sinistra profecia j� est� em curso de realiza��o: o Comando Vermelho n�o apenas domina dois quintos do territ�rio do Grande Rio, desfrutando a� o monop�lio dos sequestros, do com�rcio de carros roubados, do tr�fico de drogas, mas exerce tamb�m nessa �rea fun��es de governo, por meio do terror alternado com lisonjas paternalistas, e tem ainda a lideran�a no contrabando de armas pesadas, sendo hoje uma organiza��o mais equipada do que a pol�cia ou mesmo do que as guarni��es locais do Ex�rcito. As autoridades reconhecem que o poder da m�fia dos morros � absolutamente incontrol�vel, e ela prossegue, de vit�ria em vit�ria, atordoando a pol�cia, humilhando os governantes, e atribuindo �s suas opera��es criminosas, para c�mulo de descaramento, o sentido �pico de uma luta pela liberta��o dos oprimidos.

N�o vou aqui resumir o livro, pois pretendo que o leiam. Nas p�ginas que se seguem, concentrarei minhas observa��es antes no que me parece o seu �nico ponto fraco. N�o farei isto para depreciar os m�ritos da obra, que s�o elevados, mas justamente para os real�ar; pois essa lacuna, que est� no diagn�stico das causas e origens profundas do crime organizado, s� poderia ser preenchida por uma investiga��o que iria muito al�m do seu escopo. O autor, de fato, alude a algumas causas prov�veis, mas centraliza sua aten��o no fen�meno do Comando Vermelho como tal, sem estender seu exame ao conjunto dos fatores hist�ricos que cercaram, propiciaram e finalmente determinaram o seu surgimento. N�o se trata portanto de assinalar aqui algum defeito do livro, mas de sugerir investiga��es suplementares que dariam mat�ria para outro livro, ou v�rios.

Uma certeza o livro de Amorim parece deixar definitivamente assentada: o Comando Vermelho nasceu da conviv�ncia entre criminosos comuns e ativistas pol�ticos dentro do pres�dio da Ilha Grande, entre os anos de 1969 a 1978. Ali os militantes esquerdistas ensinaram aos bandidos as t�cnicas de guerrilha que eles viriam a usar em suas opera��es criminosas e os princ�pios de organiza��o pol�tico-militar sobre os quais viria a estruturar-se o Comando Vermelho, bem como a fraseologia revolucion�ria com que o bando hoje glamuriza suas fa�anhas.

O que n�o fica claro de maneira alguma � o grau e a natureza da participa��o das organiza��es de esquerda na cria��o do Comando Vermelho, a sua responsabilidade hist�rica pela eclos�o do fen�meno que hoje aterroriza a popula��o carioca e p�e em risco a sobreviv�ncia da jovem e fr�gil democracia brasileira.

Quanto a esse ponto, o autor se contradiz: sua narrativa dos fatos aponta num sentido, suas opini�es no sentido contr�rio. Eis uma dessas opini�es:

"Os revolucion�rios nunca pretenderam ensinar criminosos a fazer guerrilhas. Em mais de uma d�cada de pesquisas, nunca encontrei o menor ind�cio de que houvesse uma inten��o — menos ainda uma estrat�gia — para envolver o crime na luta de classes."

Logo, na interpreta��o do autor, os ensinamentos de guerrilha teriam sido passados aos bandidos de uma maneira natural, espont�nea, impremeditada, ao sabor de contatos fortuitos entre indiv�duos, e sem qualquer responsabilidade das organiza��es esquerdistas.

Mas os fatos narrados pelo pr�prio Amorim desmentem frontalmente essa interpreta��o. Sem chegarem a dar respaldo � tese policial que v� no Comando Vermelho uma extens�o ou um recrudescimento da velha guerrilha revolucion�ria, eles indicam, no entanto, que o que se passou na Ilha Grande foi algo de bem mais comprometedor do que simples conversas casuais. Poderosos interesses vetam, hoje, uma investiga��o mais profunda desses epis�dios. Os prisioneiros pol�ticos de ent�o tornaram-se gente importante, deputados, ministros, procuradores, com poderes suficientes para dissuadir qualquer olhar curioso que se lance sobre um passado que eles preferem manter protegido entre n�voas. N�o duvido que a ambiguidade do pr�prio Amorim tenha brotado do prudente desejo de evitar um confronto com essa gente, cujos partid�rios e simpatizantes exercem uma completa hegemonia sobre o seu ambiente de trabalho: as reda��es de jornais. Da minha parte, por�m, nada espero deles. No tempo em que eram perseguidos pol�ticos, ajudei-os o quanto pude, escondendo foragidos e armas, redigindo e distribuindo propaganda contra a ditadura, porque via em seus rostos o emblema da verdade, hostilizada pela mentira oficial. Hoje, que est�o a um passo do poder, j� enxergo em seu semblante a m�scara da hipocrisia, que anuncia para breve, neste pa�s, um novo imp�rio da falsidade. Todo sacerd�cio converte-se, mais cedo ou mais tarde, num culto de si mesmo: tendo outrora servido � verdade, eles hoje tomam o lugar dela no altar de um culto degenerado

Investigar o sentido dos epis�dios da Ilha Grande � romper um tabu, � violar o preceito consagrado segundo o qual a maldade, a baixeza, a hipocrisia s�o monop�lio da direita.

A conviv�ncia entre presos pol�ticos e bandidos comuns � antiga no Brasil, reconhece Amorim. Vem desde 1917, com as primeiras pris�es de agitadores sindicalistas e anarquistas. Intensificou-se durante e ap�s a rebeli�o comunista de 1935. Desde ent�o foi constante e sistem�tico o esfor�o dos comunistas para doutrinar criminosos e enquadr�-los na luta pol�tica. Um dos l�deres de 35, Greg�rio Bezerra, conta em suas mem�rias como "transformou guardas penitenci�rios e bandidos em militantes comunistas". Durante os anos do Estado Novo, conta Amorim, "o contato com intelectuais, militares radicais, pol�ticos e sindicalistas fez a cabe�a de punguistas e escroques. A partir dessa conviv�ncia, muitos homens deixaram para tr�s as carreiras no crime e optaram pela milit�ncia revolucion�ria".

Nada disso no entanto provocou a menor altera��o de conjunto no mundo do crime: "Nas ruas, o crime continuava o mesmo: avulso, violento, desorganizado. O fen�meno da conscientiza��o e o surgimento do chamado crime organizado s� v�o aparecer na d�cada de 70."

Houve portanto a� a introdu��o de um fator novo, de uma diferen�a espec�fica no tipo de influ�ncia exercido pelos militantes sobre os bandidos. Essa diferen�a residiu essencialmente no conte�do das informa��es transmitidas: em vez de simples doutrina��o ideol�gica, os bandidos receberam ensinamentos pr�ticos, que puderam por em a��o t�o logo sa�ram da cadeia. Que ensinamentos foram esses?

Primeiro, princ�pios de organiza��o, que inclu�am desde a estrutura hier�rquica e disciplinar do grupo armado at� sistemas de comunica��o em c�digo.

Em seguida, t�cnicas de propaganda ou agitprop, que lhes permitiram transformar assaltos e sequestros em espet�culos de protesto — "propaganda armada", no jarg�o esquerdista —, que ganham a simpatia ao menos parcial da popula��o e da intelligentzia.

Terceiro, t�ticas de a��o armada. Aqui a lista � grande. Dentre os procedimentos usados pela guerrilha e copiados pelo Comando Vermelho, pode-se destacar os seguintes:

1 - Realiza��o de assaltos simult�neos em v�rios bancos, para desorientar a pol�cia.

2 - Com o mesmo objetivo, bombardear os postos policiais com dezenas de alarmes falsos, no dia dos assaltos planejados.

3 - N�o sair para uma opera��o armada sem deixar montado um "posto m�dico" para atender os feridos ( que antes os bandidos deixavam � sua pr�pria sorte, expondo-se � dela��o por vingan�a ).

4 - Em caso de emerg�ncia, invadir pequenas cl�nicas particulares selecionadas de antem�o, obrigando os m�dicos a dar atendimento aos feridos.

5 - Planejamento e organiza��o de sequestros.

6 - Designar para cada opera��o um "cr�tico", que n�o participa da a��o mas apenas observa e assinala os erros para aperfei�oar a a��o seguinte.

7 - Planejar as a��es armadas com exatid�o, de modo a obter no m�nimo de tempo o m�ximo de rendimento com o m�nimo derramamento de sangue. ( Hoje o Comando Vermelho consuma em quatro ou cinco minutos um assalto a banco. )

8 - T�cnicas para o bando retirar-se do local da a��o em tempo record, aproveitando-se da conforma��o das ruas, do congestionamento, etc., ou provocando deliberadamente acidentes de tr�nsito.

9 - Planejamento cuidadoso de todas as a��es, segundo o princ�pio de Carlos Marighela: "Somos fortes onde o inimigo � fraco. Ou seja: onde n�o somos esperados."

10 - Informa��o e contra-informa��o como base do planejamento.

11 - Sistema de "aparelhos" — casas compradas em pontos estrat�gicos da cidade, para ocultar fugitivos ap�s as opera��es, guardar material b�lico etc.

O quarto e �ltimo grupo de ensinamentos dizia respeito � sele��o das melhores armas para cada tipo de opera��o, e ainda � fabrica��o de explosivos apropriados para o uso na guerrilha urbana, como coquet�is-molotov com uma f�rmula especial preparada por estudantes de Qu�mica e "bombas de fragmenta��o com pregos acondicionados junto � p�lvora e enxofre num tubo de PVC ou numa lata do tamanho de uma cerveja".

O conjunto forma um curso completo de guerrilha urbana, apoiado ainda numa bibliografia especializada, que inclu�a O Pequeno Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighela, Guerra de Guerrilhas, de Ch� Guevara, e A Revolu��o na Revolu��o, de R�gis D�bray, al�m de A Guerrilha Vista por Dentro, de Wilfred Burchett. Este �ltimo � apenas uma reportagem feita no Vietn� por um correspondente de guerra ingl�s; mas entre os militantes era t�o prezado quanto as obras de guerrilheiros profissionais, e sua circula��o chegou a ser proibida no Brasil durante os governos militares, porque "mostra como o vietcongue fabricava muni��o, inclusive com uma f�rmula para se produzir p�lvora caseira. Explica tamb�m como funcionava o sistema de t�neis para a fuga dos comandos guerrilheiros, com ilumina��o a partir de geradores movidos a roda de bicicleta. O livro fala ainda dos c�digos, do correio baseado em bilhetes entregues de m�o em m�o, de aldeia em aldeia. Um manual de guerra revolucion�ria que cont�m longas explana��es de t�tica e estrat�gia. Enfim, dinamite pura". Rematavam a bibliografia cl�ssicos da literatura marxista — Marx, L�nin — e obras menores de doutrina��o.

Todos esses ensinamentos foram depois levados � pr�tica pelo Comando Vermelho, que demonstrou possuir at� mesmo um dom�nio mais extenso deles do que as pr�prias organiza��es guerrilheiras: "O crime organizado foi muito al�m do que a luta armada tinha conseguido nos anos 70, tanto em mat�ria de infra-estrutura quanto na disciplina e organiza��o internas". Como bem resumiu o assaltante de bancos Vadinho ( Oswaldo da Silva Calil ), que viu tudo de perto na Ilha Grande, "os alunos passaram a professores".

Amorim opina enfaticamente que "n�o houve inten��o" de ensinar guerrilha aos bandidos, que a transmiss�o desses ensinamentos se deu de maneira "involunt�ria", em resultado espont�neo do "conv�vio eventual nas cadeias". Diante dos fatos narrados, � dif�cil acreditar nessa opini�o, � dif�cil mesmo admitir que o pr�prio Amorim acredite nela. Mais sensato � v�-la como uma concess�o verbal: tendo ousado divulgar fatos que s�o profundamente comprometedores para as esquerdas, Amorim preferiu deixar que a narrativa falasse por si, sem endossar pessoalmente a conclus�o que ela imp�e. Manha de rep�rter, que com muita prud�ncia teme mais as l�nguas de seus colegas de of�cio do que as balas do Comando Vermelho.

O que me faz interpretar as coisas desse modo � a despropor��o entre a for�a da narrativa e a timidez dos argumentos em que Amorim sustenta sua opini�o. Qualquer principiante do jornalismo sabe que a exposi��o dos fatos exerce sobre o leitor uma influ�ncia mais profunda do que a opini�o expressa. A verdadeira inten��o de um jornal est� na sua maneira de selecionar e ordenar as not�cias, e n�o no que ele afirma nos editoriais. As cabe�as dos rep�rteres funcionam de modo an�logo: intelig�ncias antes narrativas do que anal�ticas, expressam-se mais plenamente contando os fatos do que alinhando argumentos.

O principal argumento que Amorim apresenta em defesa de sua tese � que, ao longo de doze anos, n�o encontrou ind�cios ou provas "de uma inten��o, menos ainda de uma estrat�gia" no sentido de os militantes ensinarem guerrilha aos bandidos.

O argumento destr�i-se a si mesmo. Em primeiro lugar, n�o existe prova de inten��o, a n�o ser a l�gica mesma do ato, pela qual das consequ�ncias podemos remontar �s causas. Todo ato humano que n�o possa ser explicado pela mera acidentalidade pressup�e uma inten��o, e todo acidente �, por defini��o, moment�neo: n�o existem acidentes continuados; a mera casualidade n�o se prolonga, inalterada e uniforme, ao longo dos anos, como um par de dados n�o prossegue dando seis e seis incansavelmente ao longo das rodadas. Qualquer ato reiterado �, por si mesmo, prova da sua inten��o. Se um homem fica b�bado uma vez, duas vezes, pode ser sem inten��o e por mero efeito acumulado dos tragos mal medidos; mas se quatro ou cinco vezes por semana o encontramos virando novamente o copo at� trocar as pernas, ser� preciso alguma outra "prova" para certificar que ele teve inten��o de se embriagar? Ora, a transmiss�o de ensinamentos de guerrilha prosseguiu, na Ilha Grande, por nada menos que nove anos. Que mais ser� necess�rio para comprovar uma inten��o?

Pode-se ver a coisa por um segundo �ngulo. Uma inten��o nada mais � do que a previs�o de uma consequ�ncia, somada ao desejo de provocar essa consequ�ncia. S� podemos, portanto, supor aus�ncia de inten��o quando um homem n�o est� em condi��es de prever as consequ�ncias de seu ato. Se um marido furioso desfere um tabefe na esposa e a manda para o hospital, podemos admitir que o brutamontes n�o mediu sua for�a; mas depois de uma longa s�rie de interna��es da infeliz, devemos supor que ele ainda n�o avaliou corretamente a propor��o entre o empuxe da porrada e suas consequ�ncias hospitalares, ou que ele teve a inten��o de desencadear precisamente essas consequ�ncias? Quanto aos nossos guerrilheiros, a hip�tese da aus�ncia de inten��o pressup�e que fossem incapazes de atinar com o uso que os disc�pulos fariam de seus ensinamentos. Se um deles, uma vez ou outra, desse com a l�ngua nos dentes, poderia ser coincid�ncia. Mas v�rios deles transmitindo informa��es seguidamente ao longo dos anos, sem jamais atinar com as consequ�ncias do que faziam, � mais do que a credulidade humana pode admitir.

Provas externas s� s�o necess�rias quando a l�gica dos fatos n�o fala por si, quando nos fatos h� algo de amb�guo que admite interpreta��es variantes, o que n�o � o caso. Mas Amorim absolve os guerrilheiros justamente com base na aus�ncia desse tipo de provas. E acontece que mesmo estas n�o est�o realmente ausentes. Querem ver?

S� existem no mundo tr�s tipos de provas: materiais, documentais e testemunhais.

A prova material est� l�: a presen�a dos livros, dos manuais de guerrilha nas m�os dos bandidos � prova de que algu�m os entregou a eles. Entregar um livro comprova, manifestamente, o intuito de transmitir informa��es, e de faz�-lo de maneira mais completa do que se poderia em meras conversas de ocasi�o.

Os livros citados por Amorim eram obras raras, de tiragem limitada e circula��o proibida, que s� se encontravam, quando se encontravam, nas m�os de militantes diretamente envolvidos nas organiza��es da esquerda armada. O de R�gis D�bray circulou num volume impresso clandestinamente pela ala marighelista do PC, e o de Guevara era uma apostila mimeografada, de pouqu�ssimos exemplares. Mesmo o de Burchett ( Amorim escreve "Bulcher", mas a grafia certa � Burchett ), que saiu por uma editora comercial ( Civiliza��o Brasileira ), teve tiragem reduzida e logo foi apreendido, sobrando em circula��o uns poucos exemplares que os militantes de esquerda disputavam a tapa. N�o eram, enfim, livros de interesse geral, que se dessem a algu�m para ler por mero passatempo, mas manuais de ensino t�cnico, dirigidos a um p�blico especializado. Transmitir esses livros aos bandidos algo mais do que manifestar uma inten��o de ensinar guerrilha: � realizar essa inten��o.

Quanto a provas documentais que atestassem uma decis�o das organiza��es de esquerda de promover o ensino de guerrilhas, s� poderiam consistir em atas de reuni�es dos comit�s de presos pol�ticos, que declarassem formalmente essa inten��o. Mas os prisioneiros pol�ticos teriam de ser doidos ou suicidas para registrar uma decis�o desse teor em atas que certamente iriam parar nas m�os da dire��o do pres�dio mais dia menos dia. Ali�s eles nunca fizeram ata de decis�o nenhuma, pela mesm�ssima raz�o. Se o historiador fosse hoje depender de atas para estudar esse per�odo, n�o teria sequer uma prova de que os comit�s de presos pol�ticos chegaram a existir. Uma prova documental, no caso, n�o � exig�vel. Presos pol�ticos n�o fazem atas, tal como n�o se fazem atas de uma reuni�o de meliantes para planejar um assalto a banco. O argumento da falta de provas n�o vale, portanto, para provas documentais.

Restam, ainda, as provas testemunhais. Estas s�o amb�guas. Amorim ali�s s� cita duas. Vadinho afirma que houve ensinamento. O ent�o prisioneiro pol�tico e depois ( no governo Brizola ) diretor do mesmo pres�dio da Ilha Grande, Jos� Carlos T�rtima ( hoje procurador do Estado ), proclama que n�o:

"— � uma mentira essa hist�ria de que os presos comuns aprenderam como se organizar e no��es de guerrilha urbana com os presos pol�ticos. O conte�do ideol�gico deles � de tal forma individualista que de maneira nenhuma poderiam absorver a proposta de apoio coletivo... Repudio claramente qualquer insinua��o de que os presos comuns foram formados pelos pol�ticos. Isso � um mito veiculado pela direita."

O dr. T�rtima �, pelo visto, um desses devotos esquerdistas, para quem a senten�a "� de direita!" constitui, em si e por si, uma prova fulminante contra qualquer argumento. Algo assim como o Roma locuta, causa finita, um r�tulo fatal que, colado a uma id�ia, basta para invalid�-la para todo o sempre.

Se ele n�o pensasse assim, teria procurado cal�ar melhor seu testemunho, citando fatos em vez de dispensar-se de faz�-lo, confiado na for�a exorcizante da frase m�gica.

Pois, na verdade, o seu n�o � um testemunho; � um parecer, uma opini�o, que op�e � abomin�vel tese direitista um argumento de probabilidade l�gica: individualistas ferrenhos n�o podem, em princ�pio, absorver uma proposta de a��o coletiva, ou pelo menos � muito pouco prov�vel que o fa�am.

De um ponto de vista hipot�tico e abstrato, devemos dar raz�o ao dr. T�rtima: a lei das probabilidades est� com ele. Mas, em primeiro lugar, � estranho que uma testemunha, chamada a mostrar a falsidade de uma alega��o, se limite a demonstrar sua improbabilidade. Raciocinamos por probabilidades quando n�o temos acesso aos fatos, quando, n�o sabendo o certo, s� nos resta conjeturar sensatamente. Testemunhas n�o conjeturam: testemunhas narram.

Se passamos da conjetura para os fatos, a conversa muda. Hipoteticamente, a absor��o da proposta de apoio coletivo pelos individualistas era de fato improv�vel; mas o pr�prio livro de Amorim mostra bem claro que o improv�vel se realizou: que n�o somente os marginais absorveram a proposta, como tamb�m a puseram em pr�tica com mais rigor, efici�ncia e amplitude do que os pr�prios militantes pol�ticos; e, organizando-se melhor do que eles, chegaram ainda a coordenar o "apoio coletivo" da popula��o pobre dos morros cariocas, superando tudo o que em mat�ria de arregimenta��o popular os guerrilheiros haviam sequer sonhado: "Os alunos tornaram-se professores."

De que vale o argumento de improbabilidade, diante da prova do fato consumado? Diante desse fato, o que vemos � o argumento do dr. T�rtima voltar-se a favor da tese que ele enfaticamente repudia, contra a que defende. Se era pouco prov�vel que os individualistas an�rquicos absorvessem a proposta de apoio coletivo mesmo quando esta lhes fosse transmitida por h�beis e sol�citos professores de guerrilha, muito menor, para n�o dizer nula, seria a probabilidade de que o fizessem t�o-somente pelo esfor�o pr�prio e sem nenhuma ajuda pedag�gica. O esfor�o necess�rio para aprender sozinho � significativamente maior do que o requerido para seguir as li��es de um bom professor. Se, portanto, os individualistas desorganizados se tornaram eficientes organizadores coletivos, o m�rito muito provavelmente n�o � s� deles, nem s� deles a culpa pelo tipo de coisa que vieram a organizar.

De passagem, a desastrada argumenta��o do dr. T�rtima derruba tamb�m as opini�es do pr�prio Amorim em favor do car�ter fortuito e impremeditado dos ensinamentos de guerrilha. Se os bandidos comuns eram uns individualistas an�rquicos, como poderiam colocar em boa ordem fragmentos de informa��o colhidos aqui e ali em conversa��es casuais, a ponto de compor com eles uma t�cnica racional apta a desenvolver-se em amplas e not�veis aplica��es pr�ticas? Seria preciso um QI fora do comum, mas mesmo g�nios teriam alguma dificuldade em aprender organiza��o t�o desorganizadamente. Com toda a franqueza: pedir que acreditemos que homens primitivos, b�rbaros, indisciplinados e vol�veis conseguiram apreender os complexos princ�pios de organiza��o pol�tico-militar da guerrilha urbana t�o-somente ciscando aqui e ali uns peda�os de conversas e depois transformar essa ma�aroca informe numa t�cnica de grande efic�cia, � realmente fazer pouco da nossa intelig�ncia.

Contar com a credulidade alheia � ali�s um v�cio da esquerda brasileira, adquirido nos anos que se seguiram � queda da ditadura. A revela��o das torturas, dos cad�veres escondidos, confirmando den�ncias que antes a opini�o oficial desqualificava como invencionices de agitadores, desmoralizou a direita e elevou �s alturas a credibilidade da esquerda. Desde ent�o esta vem abusando do cr�dito para nos fazer engolir patranhas e cal�nias de toda sorte, sem outra garantia sen�o a de terem sido proferidas por quem nos disse a verdade uma vez. At� quando as atrocidades da direita ser�o fiadoras das mentiras da esquerda?

O que o dr. T�rtima nos impinge como testemunho n�o poderia mesmo valer nada, pois a "testemunha" saiu da cadeia em 1971, antes, portanto, da fase decisiva de forma��o do Comando Vermelho, sobre a qual ele sabe s� o que leu nos jornais, se � que os leu. Isto ali�s confirma o car�ter muito provavelmente calunioso de insinua��es que o acusem de envolvimento pessoal no ensino de guerrilha aos bandidos. Mas o fato de ele estar inocente n�o o qualifica para inocentar outros, dos quais nada sabe. Qual, no entanto, o esquerdista brasileiro que recusar� falar em p�blico sobre um assunto do qual ignora tudo, se o convite lhe servir de ocasi�o para dar umas alfinetadas na "direita"?

Acreditar que o "testemunho" do dr. T�rtima baste para absolver algu�m al�m dele mesmo exigiria que a nossa f� removesse montanhas. Destitu�dos da f�, fa�amos algo que, no Brasil de hoje, se tornou sinal de impiedade: raciocinemos.

Racioc�nio I - O livro de Carlos Amorim informa que os militantes esquerdistas, uma vez encarcerados, procuraram fortalecer a unidade disciplinar de suas organiza��es, para poderem resistir ao ambiente hostil. De outro lado, o mesmo livro deseja que acreditemos que homens assim afeitos a uma disciplina espartana deixaram escapar, em amenas conversas informais com os detentos comuns, todos os segredos de t�cnica militar e de organiza��o pol�tica que constitu�am o sangue e os nervos da revolu��o. Quer que acreditemos que esses homens de ferro, capazes de resistir � tortura f�sica e psicol�gica para n�o entregar nenhum segredo aos policiais, deram tudo aos bandidos, de m�o-beijada, por mera desaten��o; que de conversa em conversa foram deixando vazar teoria marxista, princ�pios de agitprop, t�cnicas militares, m�todos de organiza��o, enfim todo o conhecimento de guerrilha urbana ent�o dispon�vel, sem jamais se dar conta de que estavam ensinando guerrilha nem ter a mais m�nima inten��o de faz�-lo. Nunca ouvi uma coisa mais doida na minha vida.

Racioc�nio II — Se, ao contr�rio dos presos comuns, individualistas an�rquicos, os militantes eram socializados, politizados e disciplinados, ent�o certamente nada faziam de importante sem pr�via consulta ao "coletivo". Logo, das duas uma: ou a transmiss�o de ensinamentos de guerrilha aos bandidos foi autorizada pelo coletivo, ou foi feita em flagrante desobedi�ncia � sua proibi��o. Nesta �ltima hip�tese, devemos entender que, malgrado o alto grau de politiza��o ali reinante, reinava tamb�m a mais completa anarquia, de modo que o coletivo n�o conseguia controlar as veleidades individuais de seus membros e os deixava � solta para que, como verdadeiros individualistas an�rquicos, fizesse cada qual o que bem lhe desse na telha. � claro que, neste �ltimo caso, os presos pol�ticos n�o teriam podido resistir �s press�es do ambiente nem muito menos fazer, como disse o dr. T�rtima, "que os bandidos se acomodassem �s nossas regras". Ent�o n�o h� d�vida: transmitir aos bandidos ensinamentos de guerrilha n�o pode ter sido uma decis�o deixada ao arb�trio individual. Amorim diz muito claro que, pelo menos a partir de 1975, etapa decisiva na forma��o do Comando Vermelho, as rela��es entre presos comuns e presos pol�ticos n�o se davam de indiv�duo a indiv�duo, mas de comit� a comit�.

Racioc�nio III — Se os livros, os manuais de guerrilha, estavam proibidos de circular em todo o territ�rio nacional, muito mais o estavam entre os muros da pris�o. Introduzi-los ali e faz�-los circular, mesmo exclusivamente entre militantes, era grande temeridade. Transferi-los a bandidos comuns, gente isenta de qualquer compromisso ideol�gico e de toda confiabilidade moral, era certamente expor-se a risco de dela��o, a n�o ser que houvesse um acordo pr�vio entre o comit� dos pol�ticos e o dos presos comuns, com previs�o de graves san��es contra os faltosos. Hip�teses contr�rias, s� h� duas: ou os presos pol�ticos entregavam aos bandidos obras de Ch� Guevara e Carlos Marighela por mero descuido, folgadamente como quem distribui a crian�as exemplares de Luluzinha e Tio Patinhas; ou ent�o os presos comuns � que tinham um organizad�ssimo servi�o de espionagem capaz de burlar a vigil�ncia dos pol�ticos e surrupiar uns quantos exemplares das obras explosivas ciosamente guardadas. Mas, se era improv�vel que militantes t�o descuidados sobrevivessem na Ilha Grande, muito mais o seria que os "individualistas" an�rquicos lograssem montar um servi�o de espionagem t�o eficiente.

O testemunho de T�rtima e as opini�es de Amorim, portanto, caem por terra. O que fica de p� � a narrativa de Amorim, a sustentar, com eloqu�ncia terr�vel, a conclus�o que o autor n�o quis endossar pessoalmente: ou os militantes de esquerda ensinaram guerrilha aos bandidos com um prop�sito deliberado, ou ent�o a aquisi��o desse conhecimento pelos l�deres do Comando Vermelho � o mais prodigioso milagre de absor��o espont�nea j� registrado nos anais da pedagogia universal. Deixo esta hip�tese para os adeptos da tese segundo a qual Deus � brasileiro. Quanto � outra, resta discutir se o prop�sito dos esquerdistas foi cooptar os bandidos para a luta armada sob seu comando ou simplesmente o de vingar-se pela derrota da guerrilha deixando para o governo militar a semente do futuro tormento do banditismo organizado. Pode ter sido uma mistura das duas coisas. Alguns policiais apostam na primeira, jurando que o Comando Vermelho � uma extens�o e recrudescimento da guerrilha urbana, um novo bra�o armado das esquerdas. Esta certeza tem o mesmo fundamento daquela do dr. T�rtima: uma op��o ideol�gica pr�via que faz ver tudo torto, ou t�rtimo. Deixarei esta quest�o para outra oportunidade, advertindo apenas que ela n�o pode ser resolvida pelo m�todo das apostas sentimentais. Mas, qualquer que tenha sido o caso, uma coisa � certa: se os militantes da esquerda armada treinaram bandidos-guerrilheiros dentro da pris�o, os da esquerda desarmada, fora dela, est�o dando seguimento coerente � sua iniciativa, na medida em que ajudam o Comando Vermelho a conquistar uma posi��o de for�a como "lideran�a popular" legitimada artificialmente, e o integram assim na estrat�gia global da esquerda, j� n�o como for�a militar, e sim pol�tica. Se os jovens guerrilheiros de l968 n�o tinham uma estrat�gia definida para aproveitar-se politicamente do banditismo, os velhos pol�ticos esquerdistas de 1994 est�o lhes dando uma, retroativamente. N�o se trata de uma ponte entre gera��es: � que estes velhos, simplesmente, s�o aqueles jovens, adestrados pelo tempo. Os jovens matavam e roubavam pela revolu��o; os velhos tiram dividendos pol�ticos de assaltos e homic�dios praticados por outros. Servem-se do banditismo duplamente: ao proteg�-lo e ao denunci�-lo. No primeiro caso, ganham — ou pelo menos tencionam ganhar — os votos da popula��o pobre, que sup�em obediente ao Comando Vermelho; no segundo, servem-se dele como pretexto para denunciar a corrup��o da sociedade capitalista. Alimentam o mal para poder acus�-lo, o que �, sem exagero, o tipo da mal�cia propriamente diab�lica, imitando o tinhoso no seu duplo e insepar�vel papel de tentador e acusador. Se a id�ia de cooptar os bandidos para a luta armada era uma fantasia insensata, se o desejo de vingar-se da ditadura era uma pirra�a juvenil, uma esquerda mais madura e experiente est� sabendo reaproveitar e tirar vantagem pol�tica daquilo que, entre n�voas, foi gerado na Ilha Grande. A quem poderia ser doce esse fruto sen�o a quem, de olho no futuro, plantou a sua semente?

 

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